Faz um ano e meio que circula um número: 35 mil estudantes brasileiros cursam Medicina no Paraguai, quase sempre lido como prova de que estudar por aqui é "o caminho fácil" para quem não conseguiu vaga no Brasil. O dado é real, mas está desatualizado — é de março de 2025 — e, o que importa mais, deixa de fora a notícia de verdade: quando esses formados prestam o exame que o Brasil exige para exercer a profissão com diploma estrangeiro, quem se formou em universidades paraguaias tem, no conjunto, o melhor resultado entre os 39 países que enviam candidatos.
O que é o Revalida e por que é difícil para todo mundo
O Revalida é o exame que o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) aplica em duas etapas. É obrigatório para quem se formou em Medicina fora do Brasil e quer exercer a profissão dentro do país: sem passar nele, o diploma estrangeiro não habilita ninguém a trabalhar como médico em solo brasileiro. É difícil por definição: historicamente, entre 5% e 15% de quem presta o exame completo é aprovado. Na edição 2025/1, a primeira etapa — a que filtra a maior parte dos candidatos — aprovou 28,2% dos presentes: 4.503 de 15.952.
O dado que inverte a história
Sobre esse exame duro para todo mundo, o INEP — segundo reproduziram a Prensa Mercosur e a Estrategia Med — apurou que no Revalida 2024 os formados por universidades paraguaias tiveram a maior taxa de aprovação entre os 39 países de origem dos candidatos: 57,6%. Não é um resultado marginal: eles responderam por 921 dos 1.946 médicos aprovados no mundo todo naquele ano — 47,3% do total. Na edição seguinte, 2025/1, os diplomas paraguaios voltaram a ser os mais revalidados de todos, com 2.336 aprovados. Em outras palavras: a percepção comum é que Medicina no Paraguai é o caminho de menor exigência; o dado oficial do órgão que avalia justamente esses formados diz o contrário.
Por que os estudantes migram: a razão é o custo
A explicação de fundo não é acadêmica, é financeira. A mensalidade de Medicina em uma universidade paraguaia fica entre R$ 1.000 e R$ 2.500 (aproximadamente USD 180 a 450). Em uma universidade privada brasileira, o mesmo curso custa entre R$ 8.000 e R$ 12.000 por mês — de quatro a oito vezes mais. Dois exemplos concretos: a UCP (Universidad Católica de Asunción) cobra entre R$ 1.150 e R$ 1.950 conforme o ano do curso, e na Universidad San Sebastián a mensalidade fica em torno de USD 1.000. Além do preço, há mais dois motivos documentados: no Paraguai não existe um exame de ingresso competitivo equivalente ao ENEM ou ao vestibular — as provas que no Brasil filtram o acesso a Medicina e deixam de fora a grande maioria dos candidatos todo ano —, e há vagas disponíveis. Some-se a isso a proximidade geográfica e cultural: boa parte da oferta acadêmica está bem na fronteira.
Quantos são, e onde estão
O número de 35 mil estudantes brasileiros entre 47 mil matriculados em Medicina no Paraguai vem do Registro Único de Estudiantes (o cadastro nacional de estudantes) de março de 2025 — no momento em que este texto foi escrito, o dado já tinha cerca de um ano e meio. Levantamentos mais recentes sobre o mesmo universo trazem proporções diferentes: 77% em março de 2025, 78% em outra medição, e 70% segundo a ANEAES, em abril de 2026. No conjunto, a ordem de grandeza fica entre 70% e 78% de matrícula brasileira, dependendo da fonte e da data.
A matrícula total — paraguaios e brasileiros somados — está concentrada nos departamentos (as províncias do Paraguai) que fazem fronteira com o Brasil: Alto Paraná tem 15 mil matriculados, Amambay tem 10 mil, Asunción tem 8.500, Central tem 7.500 e Canindeyú soma mais 1.250, aproximadamente. São números de matrícula total, não só de brasileiros — por isso a soma desses departamentos ultrapassa de longe os 35 mil, já que inclui também os paraguaios. Para quem não conhece o mapa do país: Alto Paraná, Amambay e Canindeyú são os três departamentos paraguaios que fazem fronteira com o Brasil, no leste e nordeste do território. Pedro Juan Caballero, em Amambay, é a cidade fronteiriça — colada em Ponta Porã, do lado brasileiro — onde se concentra boa parte dessa oferta acadêmica. Assunção, a capital, e Central, o departamento ao redor dela, formam o outro polo, mais urbano e mais distante da fronteira.
A oferta acadêmica e o marco regulatório
Segundo um levantamento do jornal La Nación de maio de 2025, o Paraguai tinha 43 cursos de Medicina habilitados, dos quais 22 eram credenciados pela ANEAES (Agencia Nacional de Evaluación y Acreditación de la Educación Superior), o órgão paraguaio que certifica a qualidade de um curso universitário além da simples autorização para funcionar. Em março de 2026, o Cones (Consejo Nacional de Educación Superior, a autoridade paraguaia que autoriza a abertura de cursos universitários) habilitou mais três cursos de Medicina: na UNP, na Unamis e na Interamericana, esta última em Pedro Juan Caballero. Ainda não existe um comunicado que consolide o total vigente hoje, mas ele é, no mínimo, maior do que esses 43. Esses cursos são oferecidos em 25 universidades: Amambay, Alto Paraná e Canindeyú somam 23 faculdades entre as três, enquanto Assunção e Central somam 11.
O crescimento foi rápido: os diplomas de Medicina registrados no Paraguai passaram de 615 em 2014 para 6.232 em 2024, um salto de mais de 900%. Na década completa, o Ministério da Educação e Ciências (MEC) do Paraguai registrou 23.680 diplomas de Medicina: 13.750 de estudantes brasileiros e 9.700 de paraguaios. Esse crescimento acelerado também é o pano de fundo da Lei 7324/2024, que exige que estudantes estrangeiros não falantes nativos de espanhol comprovem nível B1 de espanhol — proficiência intermediária, suficiente para acompanhar aulas e fazer provas no idioma do país —, regulamentada pelas Resoluções do Cones 305/2024 e 14/2025.
O impacto econômico, sem número oficial
O setor também é discutido pelo seu peso econômico, mas aqui vale ser preciso sobre a origem do número: a estimativa de que movimenta USD 500 milhões por ano na economia paraguaia — calculada sobre cerca de 37 mil estudantes — é de Yan Speranza, da organização Desarrollo en Democracia (Dende). Nem o Banco Central, nem o MEC, nem o Cones publicam uma medição própria sobre o tema: é uma estimativa privada de uma organização não governamental.
O que isso significa para quem avalia estudar, morar ou investir por aqui
O padrão que esses dados mostram é consistente: o Paraguai oferece um curso de Medicina mais acessível em custo e em ingresso do que a alternativa brasileira, sem que isso signifique um resultado mais fraco no exame que de fato mede a formação ao final do curso. Para uma família brasileira avaliando esse caminho, ou para qualquer profissional que já se formou e pensa em se instalar no país, vale conferir o guia de residência no Paraguai para brasileiros, com os passos migratórios específicos para essa nacionalidade. Quem busca estudar especificamente na capital pode consultar o guia de estudar em Assunção e arredores, um dos polos com mais cursos habilitados do país. E se a mudança envolve se instalar com a família na capital durante o curso, o guia de bairros de Assunção ajuda a escolher a região por preço e perfil. Para um panorama mais amplo dos passos de residência por nacionalidade, além do Brasil, há o guia de morar no Paraguai. Se o seu plano é específico — um curso, uma mudança em família, um investimento ligado a esse setor — você pode falar com a gente pelo contato.
Equipo ViaParaguay