A indústria avícola do Paraguai vive um momento de transformação acelerada. Em 2026, três grandes movimentos — investimentos recordes, ampliação da capacidade produtiva e abertura de novos mercados de exportação — convergem para tornar esse setor um dos mais atrativos do agronegócio regional.
Investimentos que redefinem a escala
O epicentro da expansão é a empresa brasileira JBS, que comprometeu USD 145 milhões para ampliar suas operações no Paraguai. O impacto imediato já é visível: a companhia passou de abater 20.000 frangos por dia para 40.000, com meta declarada de atingir 100.000 aves por dia até o final de 2026 — o salto de escala mais significativo na história recente do setor.
Somando-se a esse movimento, a Pluma SA (Grupo Pluma Agroavícola) anunciou um investimento de USD 50 milhões para instalar um complexo industrial avícola integrado em Yhú, no departamento de Caaguazú. O projeto — articulado com a JBS e com a Pollpar para o abate — cobrirá toda a cadeia: produção de ovos férteis, criação de pintos, engorda e processamento para exportação. Deverá gerar aproximadamente 200 empregos diretos e transformar Caaguazú no novo polo avícola do país, segundo o vice-ministro da Indústria, Javier Viveros.
A Granja San Miguel contribuiu com USD 14,4 milhões adicionais voltados à produção de ovos férteis e pintinhos de um dia. No conjunto, o setor acumula mais de USD 209 milhões em compromissos de investimento para o ciclo 2025–2026.
Novos destinos: de Singapura aos Emirados Árabes
O crescimento produtivo vem acompanhado de uma abertura comercial agressiva. O mapa de destinos da carne avícola paraguaia se ampliou significativamente nos últimos doze meses:
- Singapura: Em março de 2026, a Pechugón — empresa com quase 60 anos de trajetória e integração total da cadeia produtiva — embarcou as primeiras cargas de frango paraguaio com certificação Halal para esse mercado. O primeiro embarque superou 84.000 kg, com meta mensal de 170.000 kg. A Pechugón é, até o momento, a única avícola paraguaia com essa certificação.
- Emirados Árabes Unidos: O Ministério de Mudanças Climáticas e Meio Ambiente dos EAU confirmou a habilitação do mercado paraguaio, uma abertura impulsionada pelo trabalho da embaixadora Carolin Konther e respaldada pelo Senacsa. Os EAU importam carne avícola por cerca de USD 1,3 bilhão anualmente, posicionando-se como um dos maiores compradores do Oriente Médio.
- Taiwan: Após quase dois anos de negociações técnicas e uma auditoria decisiva em outubro de 2024, Taiwan autorizou a entrada de carne avícola paraguaia. O mercado taiwanês importa cerca de 200.000 toneladas por ano, avaliadas em USD 340 milhões; as projeções do setor estimam que o Paraguai poderia capturar exportações de cerca de USD 15 milhões anuais assim que a cadeia de fornecimento estiver estabelecida.
- Outros mercados ativos: Filipinas (primeiros embarques em 2025), Iraque, Vietnã, Kosovo e Curaçao completam uma carteira diversificada que reduz a dependência de qualquer mercado individual.
Produção e exportações: os números de 2026
O setor cresceu aproximadamente 10% na produção em 2025 em relação ao ano anterior, consolidando um consumo interno per capita de cerca de 40 kg por ano — o maior da história do país para essa proteína.
No campo exportador, entre janeiro e abril de 2026, as vendas ao exterior de carne, miudezas e subprodutos de ave totalizaram 4.148 toneladas no valor de USD 4 milhões, representando crescimento de 21% em volume e 12% em valor frente ao mesmo período de 2025. O setor, por meio da Associação de Avicultores do Paraguai (Avipar), projeta superar as 10.000 toneladas exportadas em 2026 e as 15.000 toneladas em 2027.
Néstor Zarza, presidente da Avipar, ressalta que a indústria gera atualmente 10.000 empregos diretos ao longo de toda a sua cadeia — número que crescerá com os investimentos em andamento.
Por que isso importa para o investidor em agronegócio?
O caso avícola paraguaio ilustra com clareza as vantagens estruturais do país para a agroindústria: custos de produção competitivos, disponibilidade de matérias-primas (milho e soja para ração), mão de obra qualificada e um marco regulatório que facilita a instalação de plantas processadoras. A integração de atores globais como a JBS com produtores locais como Pechugón e Pluma mostra que o modelo de agroindústria integrada — da genética à exportação certificada — está amadurecendo rapidamente.
Para quem analisa oportunidades na cadeia agroalimentar, a avicultura paraguaia representa hoje um setor com alavancas claras: crescimento da demanda interna, diversificação de destinos de exportação com mercados premium (Halal, Ásia, Oriente Médio) e capital internacional já comprometido. Os elos com maior espaço para novos entrantes incluem a produção de insumos (milho de qualidade, equipamentos, veterinária), a logística frigorífica e os serviços de certificação internacional.
Equipo ViaParaguay