Desde 1º de maio de 2026 está em vigor a aplicação provisória do Acordo Comercial Interino (ITA) entre a União Europeia e o Mercosul para Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. Não é um anúncio nem uma promessa futura: é um tratado que já movimenta tarifas reais entre os dois blocos. Nesse contexto, a Alemanha — a maior economia da União Europeia — disse na última Cúpula do Mercosul que quer ser o primeiro país europeu a ratificá-lo por completo.
O que entrou em vigor e o que ainda falta
O Mercosul é o bloco comercial formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O acordo com a União Europeia, negociado há mais de duas décadas, é na verdade dividido em duas partes. A primeira, o Acordo Comercial Interino (ITA), cobre a liberalização tarifária: o Conselho da União Europeia autorizou sua assinatura e aplicação provisória em 9 de janeiro de 2026, vigente desde 1º de maio. A segunda, o Acordo de Associação (EMPA) — mais amplo, com capítulos de cooperação política e institucional — segue pendente: em 21 de janeiro de 2026, o Parlamento Europeu votou 334 a 324 para encaminhá-lo ao Tribunal de Justiça da União Europeia, que precisa decidir se dividir o acordo em dois instrumentos foi juridicamente correto. Esse tipo de parecer costuma levar mais de um ano. O que já está em andamento, com efeito comercial concreto, é o ITA.
A Alemanha busca ser o primeiro país a ratificar
Em 30 de junho de 2026, na Cúpula do Mercosul realizada em Luque — cidade da região metropolitana de Assunção —, o chanceler alemão Johann Wadephul pediu a ratificação e a implementação do acordo, e disse que a Alemanha busca ser o primeiro país europeu a fazê-lo. A ratificação depende de cada estado-membro da União Europeia e não avança no mesmo ritmo em todos; como maior economia do bloco, a Alemanha tem peso específico para acelerá-la.
O que o acordo muda para o Paraguai
O ITA libera tarifas em mais de 90% das linhas comerciais entre os dois blocos. Para o Paraguai, estima-se que cerca de 95% das exportações terão acesso ao mercado europeu com tarifa zero ou preferencial: uma cota exclusiva de 10 mil toneladas anuais de açúcar orgânico com tarifa zero, ampliação de cotas para carne bovina e suína, e acesso preferencial para biocombustíveis. São benefícios setoriais específicos, não uma abertura genérica.
Como está hoje a relação comercial com a Alemanha
Segundo dados de 2025 do Auswärtiges Amt — o ministério das Relações Exteriores da Alemanha —, o comércio bilateral entre os dois países somou 332,9 milhões de euros: 273,2 milhões em exportações alemãs para o Paraguai e 59,7 milhões no sentido inverso. A Alemanha vende químicos, automóveis, maquinário e bens elétricos; o Paraguai exporta sementes e frutos oleaginosos — principalmente soja e gergelim —, carne bovina resfriada, carvão vegetal, casca de cítricos e couros. É uma relação assimétrica, típica entre uma economia industrial e uma agroexportadora, e o ITA mira os itens em que o Paraguai tem mais a ganhar: alimentos, carnes e biocombustíveis com tarifa reduzida.
Uma comunidade alemã que já é parte do país
A relação não se mede só em tarifas. O mesmo levantamento do Auswärtiges Amt conta cerca de 30 mil cidadãos alemães e cerca de 150 mil pessoas de ascendência alemã vivendo no Paraguai, número que inclui as comunidades menonitas do Chaco — a região semiárida do oeste paraguaio, com forte presença de colônias agrícolas fundadas por imigrantes europeus. A Câmara de Comércio Paraguaio-Alemã (AHK Paraguai) opera desde 1956, reúne mais de 300 afiliados — número de uma câmara binacional, vale destacar, não uma contagem de empresas alemãs operando no país, dado sem fonte oficial publicada — e integra uma rede de 140 escritórios AHK no mundo. A isso se somam o Instituto Cultural Paraguaio-Alemão (ICPA), a Universidade Paraguaio Alemã (UPA) e o Colégio Concordia.
Visitas de alto nível, antes e depois do acordo
O interesse não é recente. O presidente federal alemão Frank-Walter Steinmeier visitou o Paraguai em 2 e 3 de março de 2025, com uma delegação econômica. O ex-presidente Christian Wulff visitou o país em 3 de agosto de 2026: reuniu-se com o presidente Santiago Peña e percorreu o Colégio Concordia, a Universidade Paraguaio Alemã, a Câmara de Comércio, o ICPA e a Colônia Neuland, no Chaco, onde conheceu programas de formação dual — o sistema que combina estudo em sala de aula com treinamento prático em empresas, de tradição alemã.
Hidrogênio verde: interesse real, execução ainda de fora
Um dos setores que mais entusiasmo gera é o hidrogênio verde, um combustível produzido separando a água em hidrogênio e oxigênio por meio de eletricidade de origem renovável, sem emissões de carbono no processo. A delegação que acompanhou Steinmeier em 2025 explorou cooperação nessa área no Chaco paraguaio, que combina terra disponível com potencial eólico e solar. Mas hoje não há nenhum projeto alemão de hidrogênio verde em execução no Paraguai. O mais avançado do setor é de uma empresa inglesa, a Atome, que constrói em Villeta a primeira planta de fertilizantes verdes do mundo, cerca de 30 quilômetros ao sul de Assunção, com um investimento de USD 365 milhões, seguida de um projeto suíço (USD 150 milhões) e um neerlandês (mais de USD 100 milhões). O interesse alemão é genuíno; a execução, por enquanto, é de outros países.
O que a Alemanha observa: maquila e grau de investimento
Entre os setores que despertam interesse alemão está também a maquila, o regime industrial que permite instalar uma planta no Paraguai para montar ou processar produtos com insumos importados sem pagar tarifas, e exportar o resultado para terceiros países. É regulada pela Lei 1064/97, que fixa um tributo único de 1% sobre o valor agregado em território nacional — ou sobre o valor da fatura da matriz, o que for maior — além de isentar de tarifa a importação de insumos e bens de capital. Somar uma tarifa reduzida pelo ITA ao tributo de 1% da maquila muda a equação de custos para uma empresa que já exporta para a União Europeia.
A isso se soma o grau de investimento, a classificação que as agências de risco de crédito dão a um país quando consideram sólida sua capacidade de pagamento, o que barateia o financiamento externo. A Moody's concedeu ao Paraguai em 2024 e a ratificou com perspectiva estável em julho de 2026 (Baa3); a S&P seguiu em dezembro de 2025. A Fitch mantém um degrau abaixo, em BB+, com perspectiva positiva desde outubro de 2025, em um momento de expansão sustentada: 6,6% em 2025, com projeção de cerca de 4,5% para 2026. A Europa investiu USD 12,624 bilhões no país entre 2020 e 2024, 31% de todo o investimento estrangeiro direto recebido em 2024 (USD 2,899 bilhões naquele ano).
A leitura do embaixador alemão
Gordon Kricke, embaixador da Alemanha no Paraguai desde que apresentou credenciais em 13 de agosto de 2024, resumiu o clima da relação bilateral em entrevista à La Nación: "Vejo um grande potencial também no futuro para investimentos da Alemanha", disse, e acrescentou que "há mais interesse, mais atenção na Alemanha, o Paraguai é mais conhecido agora". Sobre a posição do país: "O Paraguai está no meio do continente, em uma posição global estrategicamente importante", e: "O Paraguai tem uma reputação merecida, de um país estável política e economicamente". Citou como setores de interesse o hidrogênio verde, a maquila, o agronegócio, o açúcar orgânico e a carne bovina — os mesmos itens em que o ITA e o regime paraguaio de incentivos já oferecem vantagens concretas.
O que isso significa para quem avalia investir
Para um investidor que olha o Paraguai de fora, o sinal não é uma declaração diplomática isolada: é um acordo comercial já parcialmente em vigor, grau de investimento de duas das três principais agências, um regime de maquila em operação há quase três décadas e uma comunidade alemã consolidada que reduz a barreira de entrada. Quem avaliar operações de importação e exportação, ou quiser entender as implicações fiscais de se mudar sendo alemão, pode consultar o guia sobre residência de alemães no Paraguai. Para uma avaliação concreta de oportunidades, a equipe da ViaParaguay está disponível pelo contato.
Equipo ViaParaguay