Em abril de 2026, o Paraguai tornou-se o cenário de um marco histórico para a indústria verde global: a Atome PLC, empresa britânica listada no mercado de capitais do Reino Unido, atingiu a Decisão Final de Investimento (FID) para construir em Villeta — 45 quilômetros ao sul de Assunção às margens do Rio Paraguai — a primeira planta industrial de fertilizantes verdes em escala comercial do mundo. Com financiamento total de USD 665 milhões e uma coalizão dos principais bancos multilaterais de desenvolvimento do planeta, o Projeto Villeta posiciona o Paraguai no mapa da economia verde internacional.
Por que o Paraguai e por que agora
A resposta a ambas as perguntas é a mesma: Itaipu Binacional. A usina paraguaio-brasileira é a segunda maior hidrelétrica do mundo em geração de energia e tem uma característica singular: o Paraguai utiliza apenas 30% de sua cota de 50% da produção, vendendo o restante ao Brasil. Isso significa que o país dispõe de eletricidade renovável abundante, estável e com preço extremamente competitivo.
A produção convencional de fertilizantes nitrogenados depende quase inteiramente do gás natural, tornando-a uma das indústrias com maior pegada de carbono do setor agrícola. A tecnologia da Atome inverte essa equação: usa a energia hidrelétrica de Itaipu para eletrolisar água e produzir hidrogênio verde, que é combinado com nitrogênio atmosférico para gerar amônia, precursora do nitrato de cálcio amônio (CAN). A energia representa 60-70% dos custos de produção de fertilizantes — e com Itaipu como fonte, essa equação se resolve estruturalmente em favor do Paraguai.
A arquitetura financeira: USD 665 milhões sem subsídios estatais
Os USD 665 milhões provêm inteiramente de capital privado e instituições multilaterais, sem qualquer subsídio, garantia ou prêmio ecológico do Estado paraguaio.
- Dívida (USD 420 milhões): coordenada pelo BID Invest e pelo IFC (Banco Mundial). Outros credores: Banco Europeu de Investimentos (BEI), banco holandês FMO e o Fundo Verde para o Clima (GCF).
- Capital próprio (USD 245 milhões): liderado pela Hy24 (maior gestora global de ativos de hidrogênio), com até USD 115 milhões. Participam também o IFC, o banco alemão KfW DEG, o fundo dinamarquês IFU/IFDK e o banco paraguaio Sudameris Bank.
A planta: o que produzirá e como
O Projeto Villeta produzirá 260.000 toneladas métricas anuais de nitrato de cálcio amônio (CAN), exigindo 145 MW de potência instalada, 100% renovável. O processo é livre de combustíveis fósseis: eletrólise da água → hidrogênio verde → síntese de amônia (Haber-Bosch) → CAN. O impacto ambiental: 500.000 toneladas de CO₂ equivalente evitadas por ano, totalizando 12,5 milhões de toneladas ao longo da vida útil da planta — equivalente a eliminar o consumo de 29 milhões de barris de petróleo.
O acordo com a Yara: risco comercial zero na primeira década
A Yara International ASA, maior produtora e distribuidora de fertilizantes do mundo (Noruega), firmou contrato de offtake para comprar 100% da produção durante os primeiros 10 anos. Aproximadamente 90% da produção será exportada, principalmente para Argentina e Brasil — os dois maiores consumidores de fertilizantes da América do Sul. A região do Mercosul importa cerca de 30 milhões de toneladas de fertilizantes por ano, cobrindo 95% de suas necessidades de fontes externas.
Cronograma
- Meados de 2026: aprovação dos acionistas da Atome PLC e fechamento financeiro definitivo.
- Segundo semestre de 2026: início das obras civis em Villeta.
- Outubro de 2029: início das operações comerciais plenas.
O Projeto Villeta valida que o Paraguai, graças à sua energia limpa e estabilidade macroeconômica, pode tornar-se um nó da nova indústria verde global. As mesmas instituições que financiam a descarbonização da Europa e da Ásia estão colocando capital em solo paraguaio — sem subsídios, sem garantias soberanas — porque os números fecham.