Após décadas de promessas, o transporte de massa moderno no Paraguai está mais próximo do que nunca de se tornar realidade. O Trem de Proximidade (Tren de Cercanías), um sistema ferroviário elétrico que ligará Assunção, Luque e Ypacaraí, avança no Congresso com apoio político amplo e inédito. O Senado aprovou em 13 de maio de 2026 e a Câmara dos Deputados o tem como segundo ponto da agenda do dia 26 de maio. Se a Câmara o sancionar como esperado, o Poder Executivo poderá avançar para a licitação e início das obras no primeiro trimestre de 2027.
O que é o Trem de Proximidade
É o primeiro sistema de transporte público elétrico, massivo e moderno da história do Paraguai. Diferente de projetos anteriores — como o plano de metrô subterrâneo coreano de USD 600 milhões que ficou arquivado — o Trem de Proximidade aproveita a infraestrutura ferroviária já existente: o corredor histórico da Ferrovia Carlos Antonio López, a primeira ferrovia construída na América do Sul, inaugurada em 1861.
O sistema se desenvolverá em duas fases:
- Fase 1: Assunção → Luque, 18 quilômetros, prazo de construção de 3 anos.
- Fase 2: Luque → Ypacaraí, mais 26 quilômetros, completando o corredor total em 5 anos.
O trajeto completo de 44 quilômetros cobrirá alguns dos corredores viários mais congestionados do país. O trajeto Assunção-Luque pode superar 90 minutos no horário de pico.
A tecnologia: leve, elétrico e com catenária aérea
O sistema é um trem leve 100% elétrico, alimentado por catenária aérea. Não requer baterias nem combustível, e pode ser alimentado pela rede elétrica paraguaia — uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, baseada na hidroeletricidade de Itaipu e Yacyretá. Especificações: 11 composições bidirecionais, de 3 a 5 vagões cada, com capacidade para 300 passageiros por composição. A FEPASA confirmou que apenas 10 metros do corredor existente são necessários.
A capacidade que muda a equação do trânsito
As projeções oficiais do Ministério da Indústria e Comércio (MIC) são claras: o sistema transportará 40.000 passageiros por dia, equivalente a 14 milhões de viagens anuais. Cada passageiro do trem representa um carro a menos na rota. O MIC estima que a mobilidade diária de trabalhadores e estudantes terá, pela primeira vez, uma alternativa rápida e previsível.
A estrutura financeira: Emirados Árabes Unidos como parceiro estratégico
O projeto será financiado por uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) com capital inicial de USD 200 milhões:
- 75% (USD 150 milhões): consórcio investidor dos Emirados Árabes Unidos
- 25% (USD 50 milhões): Estado paraguaio via FEPASA
O saldo até os USD 450 milhões totais da Fase 1 será completado com financiamento de dívida. O investimento total de ambas as fases supera USD 600 milhões. O acordo com os EAU foi formalizado em 5 de fevereiro de 2026, quando uma missão presidencial paraguaia viajou a Abu Dhabi e assinou os documentos iniciais.
Apoio legislativo
O deputado Benjamín Cantero, presidente da Comissão de Obras Públicas, descreveu o projeto como "uma oportunidade histórica para transformar a realidade de Central." O deputado José Rodríguez destacou: "Este projeto muda a realidade de Central e de toda a área metropolitana de Assunção — não é só transporte, é desenvolvimento econômico, valorização de bairros e qualidade de vida."
Impacto econômico: 20.000 empregos na construção
O MIC estima que a fase de construção gerará aproximadamente 20.000 postos de trabalho diretos e indiretos. A fase operacional sustentará 500 empregos diretos permanentes — motoristas, técnicos de manutenção, pessoal de estações e operadores do sistema.
Por que este projeto é diferente dos anteriores
- Usa infraestrutura existente: o corredor da Ferrovia Carlos Antonio López já existe. Sem expropriações em larga escala nem construção de túneis.
- Tem financiamento confirmado: o acordo com os EAU consiste em documentos assinados, apoiados pela aprovação legislativa em andamento.
- Tem apoio político bipartidário do Executivo e amplas maiorias legislativas.
- A demanda de mercado é real: o corredor Assunção–Luque–Ypacaraí já move dezenas de milhares de pessoas diariamente por rodovia. A demanda está lá, presa no trânsito.
Se o cronograma for cumprido, o primeiro trem elétrico da história do Paraguai deverá entrar em serviço entre 2029 e 2030.