O Paraguai fechou 2025 com USD 200 milhões em exportações de chia, segundo reportagem do ABC Color publicada em 13 de dezembro de 2025. O número coroa um ano em que o setor também recuperou, em agosto de 2026, o acesso pleno ao exigente mercado japonês: o Japão suspendeu o regime de inspeção de 100% imposto um ano antes após detectar resíduos de atrazina — um herbicida de uso agrícola —, e voltou à amostragem aleatória comum. A informação foi confirmada por cinco veículos — ABC Color, Última Hora, El Nacional, La Nación e Prensa Mercosur — entre 10 e 12 de agosto de 2026.
Um ano de controle reforçado que já terminou
O episódio japonês é uma lição sobre o que significa depender de padrões fitossanitários exigentes para sustentar um negócio de exportação. Em julho de 2025, o Japão detectou resíduos de atrazina em carregamentos de chia paraguaia e respondeu inspecionando 100% dos embarques durante um ano inteiro. Só em agosto de 2026 o regime voltou à sua modalidade comum de amostragem aleatória, reduzindo tempo e custo logístico para os exportadores que vendem a esse destino.
Como se chegou aos USD 200 milhões
O acumulado de 2020 a 2024, segundo dados do Senave — o organismo paraguaio de sanidade vegetal — e da Agencia IP, via a Janela Única de Exportação (Ventanilla Única de Exportación), soma 213.323 toneladas exportadas em cinco anos. Os Estados Unidos concentraram 35,39% desse total, seguidos pelos Países Baixos (9,74%), Alemanha (7,28%), Bolívia (5,25%) e Reino Unido (4,71%). Só a safra de 2024 superou as 68.000 toneladas.
O impulso mais recente veio de julho a novembro de 2025: 46.000 toneladas exportadas, 14% a mais que as 40.000 toneladas do mesmo período de 2024, em quase USD 123 milhões, 42% acima dos USD 86 milhões de um ano antes. "A demanda internacional continua aumentando, e o Paraguai está demonstrando que está à altura dos mercados mais exigentes", afirmou Adrián Baquer, presidente da Câmara Paraguaia de Exportadores de Chia (Capec), citado pela Infonegocios. Desses números surge um preço implícito de cerca de USD 2.674 por tonelada FOB, resultado de dividir os USD 123 milhões pelas 46.000 toneladas.
Uma cultura de entrada barata dentro da zafriña
Para quem olha o setor de fora, parte do atrativo é a sua baixa barreira de entrada. Segundo o ABC Color (12 de julho de 2025), plantar chia custa menos de USD 200 por hectare, com um rendimento de aproximadamente 500 quilogramas por hectare: receita bruta de USD 550-600/ha e lucro líquido próximo de USD 400 por hectare.
O plantio se concentra entre meados de fevereiro e abril, janela que coincide com a zafriña — a segunda safra do ano, plantada no mesmo talhão onde já foi colhida a soja ou o milho. As regiões de maior produção, segundo o ABC Color, são Canindeyú — a de maior concentração —, San Pedro e Concepción, na região Oriental, com Canindeyú e Concepción na fronteira com o Brasil; outras fontes incluem também Amambay, Caaguazú e Itapúa.
Em área plantada, a cultura passou de 180.000 hectares em 2024 para uma projeção de ~200.000 hectares para 2025: uma projeção de meados do ano (julho de 2025), e não um fechamento confirmado da safra.
Como um estrangeiro entra nesse negócio?
Para um leitor que olha o Paraguai a partir de Miami, Madri, Buenos Aires ou São Paulo, a pergunta é como entrar: comprando, arrendando, com uma sociedade ou com qual financiamento.
Posso comprar terra? Depende da nacionalidade e do terreno. A Lei N° 2532/2005 ("Zona de Segurança de Fronteira"), modificada pela Lei N° 2647/2005 e ainda vigente em 2026 — confirmado pelo Parecer Jurídico DGPEJBF N° 49/2025 do Ministério de Economia e Finanças, de 23 de junho de 2025 —, proíbe, numa faixa de 50 quilômetros ao longo das fronteiras terrestres e fluviais do país, que sejam proprietários, condôminos ou usufrutuários de imóveis rurais os estrangeiros de países limítrofes — Argentina, Brasil e Bolívia — sem radicação permanente, e as sociedades nas quais esse tipo de estrangeiro detenha mais de 50% do capital. Não alcança "todo estrangeiro": um investidor dos Estados Unidos, da Europa ou da Ásia não tem essa restrição em nenhum ponto do país, e ela deixa de valer para os limítrofes que já têm radicação permanente no Paraguai. Como boa parte das zonas produtoras de chia fica em departamentos na fronteira com o Brasil, obter a residência paraguaia é, para um leitor argentino ou brasileiro, na prática, a chave que destrava a compra; vale verificar o lote específico no mapa oficial do Serviço Nacional de Cadastro. Sobre o preço: não há referência pública confiável por departamento — só anúncios avulsos e faixas desatualizadas —; antes de qualquer oferta, o caminho é pedir avaliação a uma consultoria rural local.
Posso arrendar em vez de comprar? Sim, até produtores paraguaios fazem isso. Segundo o ABC Rural (ABC Color, 27 de dezembro de 2025), o arrendamento agrícola fica entre ₲ 1.800.000 e ₲ 2.500.000 por hectare ao ano — o guarani (₲) é a moeda paraguaia —, o equivalente a 800-1.400 quilos de soja pagos com entrega em silo; nas zonas consolidadas do nordeste (Canindeyú, San Pedro), os contratos anuais superam 1.200 kg/ha. O aluguel de terra no Paraguai não é cotado em dólares, e sim em quilos de soja, liquidados contra o preço do grão no momento da entrega.
Preciso de uma sociedade? Não para ser dono, mas há vantagens operacionais e fiscais, e não é preciso residência: um estrangeiro pode deter 100% das ações apenas com o passaporte. O caminho mais ágil é a Empresa por Ações Simplificada (EAS) — sócio único, 100% estrangeira, sem capital mínimo, constituição digital em 72 horas a duas semanas —, frente à SRL e à SA, que exigem dois sócios e são mais lentas. O atrito real: o representante legal precisa ter cédula paraguaia, o que se resolve com um representante local enquanto se tramita a própria. Toda sociedade se registra no Registro Público de Comércio e obtém seu RUC junto à SET.
Posso me financiar? O crédito agrícola estatal — CAH e AFD/PROCAMPO — exige que o sujeito de crédito seja residente no território nacional: não está disponível para um estrangeiro não residente, que precisa de capital próprio ou financiamento privado.
Quem exporta
Entre as empresas líderes do setor estão a Hypergrain S.A., com planta em Caraguatay (Cordillera) e capacidade de processamento de 10.000 toneladas, descrita como a maior exportadora de produção orgânica de chia, amendoim e gergelim do país, cujo presidente é Sohichi Takahashi; e a Healthy Grains S.A., que opera desde 2005 em Luque e exporta para mais de 40 países — um alcance considerável para um país sem saída para o mar.
Que fatia da demanda mundial o Paraguai cobre?
Takahashi, que também preside a Câmara Paraguaia Exportadora de Chia (Capachía), afirmou: "O Paraguai consolidou sua posição como o maior exportador de chia do mundo nos últimos 10 anos, chegando a cobrir aproximadamente 50% da demanda total em nível global". Estimativas do setor, divulgadas entre 2022 e 2025, situam essa participação numa faixa de 50% a 80% da demanda mundial. O ABC Color informou em julho de 2025 que mais de 20.000 produtores participam do setor em todo o país.
Para 2026, as câmaras do setor projetam que a área plantada crescerá entre 20% e 25%. A Capachía, presidida por Takahashi, e a Capec, presidida por Baquer, são as duas câmaras do setor.
O risco que não se pode perder de vista
A chia também carrega uma memória de volatilidade. Na bolha de sobreoferta de 2013-2014, o preço despencou de uma faixa entre USD 7.000-12.000 por tonelada para menos de USD 1.000, segundo reportagem da Última Hora de 11 de agosto de 2014. Os USD 2.674 por tonelada estimados para 2025 estão bem abaixo daqueles picos, mas o precedente mostra quanto o preço de uma cultura de exportação relativamente nova pode oscilar nos mercados internacionais.
O outro risco, mais recente, é o fitossanitário: o episódio da atrazina com o Japão mostrou que um único achado de resíduos pode significar um ano inteiro de controle reforçado sobre 100% dos embarques a um destino. Para um país que, segundo Takahashi, cobre cerca de metade da demanda mundial, manter o acesso a mercados exigentes como o japonês depende de cumprir esses padrões de forma sustentada.
Se você está avaliando entrar no agro paraguaio a partir de fora, vale a pena conhecer a maquila sob a Lei 1064/97 ou o Corredor Bioceânico. E se tiver uma dúvida pontual — sobre residência, estrutura societária ou um terreno específico —, pode falar com a gente.
Equipo ViaParaguay