O Paraguai avança para se posicionar como corredor energético regional por meio do Gasoduto Bioceânico, um projeto impulsionado pelo Vice-Ministério de Minas e Energia com um investimento estimado em mais de USD 2.000 milhões e um percurso de cerca de 1.000 km pelo Chaco paraguaio, a vasta planície semiárida que ocupa toda a metade ocidental do país, pouco povoada e separada do restante do território paraguaio pelo rio Paraguai. Um gasoduto é, em essência, uma rede de tubulações que transporta gás natural sob pressão entre dois pontos distantes, neste caso conectando campos do lado argentino a mercados industriais do lado brasileiro. A pasta de energia apresentou o projeto como proposta "tecnicamente estruturável" no Fórum de Integração Gasífera do Mercosul e Chile, realizado em Assunção e organizado pela OLADE (Organização Latino-Americana de Energia, o organismo intergovernamental que coordena políticas energéticas entre os países da região) junto com a CAF, o banco de desenvolvimento da América Latina. É, por enquanto, uma proposta técnica em desenvolvimento, sustentada por gestões diplomáticas e reuniões setoriais, sem traçado definitivo nem cronograma de obra publicados.
A infraestrutura que já está em obras
A infraestrutura física em torno do projeto já é, em boa parte, uma realidade concreta e verificável. Em Carmelo Peralta, um distrito do departamento de Alto Paraguai —um dos 17 departamentos do país, o mais distante de Assunção, no extremo norte do Chaco— está sendo construída a Ponte da Bioceânica, que cruzará o rio Paraguai rumo a Porto Murtinho, já do lado brasileiro. A obra é financiada por Itaipu, a represa hidrelétrica binacional entre Paraguai e Brasil, uma das maiores usinas elétricas do mundo, com um investimento de cerca de USD 136 milhões; em meados de 2026, o avanço estava entre 86% e 90%. Além de financiar a ponte, Itaipu é a fonte que explica boa parte da matriz elétrica limpa do país: o Paraguai gera sua eletricidade quase totalmente com represas hidrelétricas, sem depender de combustíveis fósseis para produzi-la. Esse mesmo ponto geográfico é também a porta paraguaia do Corredor Bioceânico, uma rota terrestre que conecta o oceano Pacífico ao Atlântico atravessando Chile, Argentina, Paraguai e Brasil. É um projeto rodoviário distinto do gasoduto, ainda que compartilhe com ele a marca "bioceânico" e a mesma travessia fronteiriça: um movimenta caminhões e mercadorias, o outro movimentaria gás. A essa infraestrutura soma-se a Hidrovia Paraguai-Paraná, a via navegável pela qual hoje passam 80% do comércio exterior paraguaio e que funciona como a saída para o mar de um país sem litoral próprio.
Que indústrias o gás habilitaria
Esse corredor —ponte, rodovia e hidrovia, já em obras ou em operação— é o que o gasoduto somaria, com o gás como quarta camada de conectividade. É também o que explica o interesse paraguaio no projeto: que indústrias o país poderia instalar se contasse com uma fonte estável de gás natural. Hoje o Paraguai não consegue abrigar produção de fertilizantes, cerâmica nem outros processos industriais que dependem dessa fonte de energia, seja como combustível para fornos de alta temperatura, seja como insumo químico de base. O Vice-Ministério se reuniu especificamente com duas câmaras industriais brasileiras que usam gás em grande escala: Abiquim, da indústria química e de fertilizantes, e Anfacer, da indústria cerâmica. O Paraguai já tem um antecedente de indústria atraída por sua matriz energética, ainda que por uma via diferente do gás: em Villeta está sendo instalada a primeira planta de fertilizantes verdes da Atome, que usa hidrogênio produzido com eletricidade hidrelétrica em vez de gás natural. É o mesmo tipo de indústria que o acesso ao gás ampliaria, somando uma fonte de energia adicional à já disponível. Projetos desse tipo costumam se instalar no país sob o regime de maquila da Lei 7547/2025, pensado para manufatura voltada à exportação, com benefícios fiscais específicos para esse tipo de operação industrial.
Esse interesse em contar com gás próprio também responde à conta energética atual do país. O Paraguai importa 100% dos hidrocarbonetos que consome: somente nos primeiros quatro meses de 2026, somou 701,9 milhões de litros de diesel e 569,4 milhões de litros de gasolina, acima dos volumes registrados no mesmo período de 2025. Ter uma fonte própria de gás, ainda que por meio do trânsito de gás de um terceiro país, mudaria essa equação para boa parte da indústria.
Gás argentino, Paraguai em trânsito
O gás que circularia primeiro pelo gasoduto não seria paraguaio. O propósito documentado do projeto é transportar gás natural de Vaca Muerta —um dos maiores campos de gás e petróleo não convencional do mundo, localizado na Argentina— até o Brasil, especificamente até os estados de Mato Grosso do Sul e São Paulo, com o Paraguai como território de trânsito. Segundo a pasta de energia paraguaia, esse trânsito gera a demanda que hoje falta para tornar viável, mais adiante, o desenvolvimento do gás próprio do país: um mercado já em funcionamento facilita financiar a exploração que ainda não foi feita.
A EPE, a empresa de pesquisa energética do governo brasileiro, projeta que a demanda de gás natural não destinada à geração elétrica —a que é usada diretamente pela indústria e outros consumidores— crescerá 3,2% ao ano no Brasil, cifra revisada para cima em relação a uma projeção anterior de 2,5%. A mesma EPE também prevê um forte crescimento da produção própria do Brasil a partir de 2026, impulsionado pelo pré-sal, os campos de gás e petróleo localizados sob uma espessa camada de sal nas bacias de Santos e Campos, na costa brasileira.
O recurso próprio, ainda sem certificação
O próprio território paraguaio também guarda um recurso de gás natural, ainda sem certificação. Em 1º de setembro de 2026, a petroleira privada Zeus Energy apresentou uma estimativa de 70 TCF —trillion cubic feet, ou trilhões de pés cúbicos, a unidade padrão para medir volumes de gás natural, a mesma usada para dimensionar campos como Vaca Muerta— na bacia Carandayty-Boquerón, no Chaco. O Vice-Ministério de Minas e Energia assinalou que essa cifra "não passa de um recurso estimado" —um cálculo preliminar sobre o que poderia existir no subsolo segundo estudos geológicos, diferente de uma reserva certificada, que exige perfuração e auditoria independente— e que chegar à certificação demandaria entre 3 e 5 anos a mais de exploração.
Um corredor em construção
O Paraguai mantém grau de investimento concedido pela Moody's e pela S&P, e já construiu, com a mineração de Bitcoin, um antecedente de indústria que se instalou no país por sua matriz energética: hoje é o quarto maior centro de mineração de Bitcoin do mundo. O Gasoduto Bioceânico se soma a essa mesma aposta, agora sobre gás em vez de eletricidade, com o Chaco como peça central de um corredor que conectaria a produção argentina ao mercado brasileiro, e que ao mesmo tempo abriria a porta a indústrias que hoje não têm como se instalar no Paraguai por falta dessa fonte de energia. As decisões sobre financiamento, traçado e contratos ficam nas mãos dos governos do Paraguai, da Argentina e do Brasil, e das empresas que eventualmente investirem na construção. A equipe da ViaParaguay acompanha de perto esses desenvolvimentos e pode orientar sobre como avaliar oportunidades de investimento ligadas à energia e à indústria no Paraguai por meio do formulário de contato.
Equipo ViaParaguay