O Paraguai é hoje o quarto país do mundo em mineração de Bitcoin, atrás de Estados Unidos, Rússia e China. É o que indica a Hashrate Index, empresa que acompanha de perto a indústria de mineração de bitcoin: segundo sua estimativa mais recente, referente ao segundo trimestre de 2026, o Paraguai concentra 4,3% do hashrate mundial, cerca de 43 EH/s. O hashrate é o poder de cálculo total que sustenta a rede Bitcoin —quanto mais hashrate um país contribui, mais capacidade de mineração tem instalada ali—, e se mede em EH/s, ou exahashes por segundo, uma unidade que agrupa trilhões de cálculos realizados a cada segundo pelos computadores dedicados à mineração. Minerar bitcoin, em termos simples, é o processo pelo qual milhares desses computadores competem entre si para validar as transações da rede e adicionar o próximo bloco à cadeia, recebendo em troca uma recompensa na própria criptomoeda; quanto mais desses computadores um país opera, maior é sua participação no hashrate mundial.
O dado não é um censo oficial nem uma estatística governamental: a Hashrate Index o constrói combinando informações dos principais pools de mineração —os serviços em que os mineradores agrupam sua capacidade de cálculo—, e não a partir de uma medição direta de cada operação no país. Com essa ressalva, a tendência ainda é clara. No corte anterior, de janeiro de 2026 e baseado em dados do quarto trimestre de 2025, o ranking mundial era: Estados Unidos com 37,5% do hashrate, Rússia com 16,4%, China com 11,7%, Paraguai em quarto lugar com 4,0%, Emirados Árabes Unidos com 3,1% e Omã com 3,0%. A fatia paraguaia subiu de 4,0% para 4,3% entre esses dois cortes, com a capacidade estável em torno de 43 EH/s: o percentual também se move quando cresce o hashrate mundial, mesmo que a capacidade instalada no país não mude.
A vantagem por trás do quarto lugar
A razão por trás do ranking é energética. O Paraguai gera praticamente 100% de sua eletricidade com hidrelétricas: Itaipu, uma das maiores usinas hidrelétricas do mundo, binacional com o Brasil; Yacyretá, binacional com a Argentina; e Acaray, de operação totalmente paraguaia. Juntas, as três somam uma potência nominal combinada de 8.760 MW, embora o número dependa da hidrologia do momento. As três usinas formam uma matriz elétrica que não depende de combustíveis fósseis, um traço pouco comum até mesmo entre os países que lideram o ranking mundial de mineração. Só no primeiro semestre de 2026, Itaipu forneceu à ANDE, a elétrica estatal, 14.603 GWh, alta de 20,6% em relação ao ano anterior; entre janeiro e julho de 2026, o total chegou a 16.876 GWh.
A ANDE —a Administração Nacional de Eletricidade, a estatal paraguaia que gera e distribui toda a eletricidade do país— não é um órgão regulador independente: fixa suas próprias tarifas por resolução administrativa, e não como resultado de um mercado elétrico competitivo. O Paraguai consome apenas uma fração da energia a que tem direito pelos tratados de Itaipu e Yacyretá, e revende o restante. Essa combinação —geração limpa, baixo consumo interno e excedente disponível— explica as tarifas industriais paraguaias, entre as mais baixas da região, e foi o que primeiro atraiu a mineração de Bitcoin e, depois, outras indústrias intensivas em energia, como o crescente hub de inteligência artificial e data centers que se instala no país, e a planta de fertilizantes verdes que a Atome constrói em Villeta, atraída pela mesma energia limpa e barata. A própria ANDE afirma que o excedente energético está garantido "a curto prazo", enquanto busca novas fontes de geração para sustentá-lo daqui para frente.
A mineração em números
Segundo a Câmara Paraguaia de Fintech, citada pelo ABC Color em julho de 2026, cerca de 1.000 MW da matriz elétrica paraguaia estão hoje vinculados à mineração de Bitcoin. A mesma fonte indica que 60% da receita que a ANDE obtém com a venda de excedentes vem dessa atividade.
O mapa de operadores se concentrou. Em 2026 há 41 operadores licenciados, com 943,8 MW reservados no total —cada megawatt reservado é a capacidade elétrica que um operador contrata para alimentar suas fazendas de mineração—, e quatro empresas entre eles concentram 730 MW. Um ano antes havia 71 operadores: uma queda de 42% no número de empresas ativas. Mas a potência contratada se manteve ou cresceu no mesmo período, o que descreve uma consolidação em menos players, cada um maior, e não uma fuga de capacidade instalada.
O vencimento de 2027
Todos os contratos vigentes de mineração com a ANDE vencem em 31 de dezembro de 2027. A ANDE descreve esse prazo como "não negociável" e já adiantou o que planeja fazer com essa potência: realocá-la para projetos de inteligência artificial e indústria, os mesmos setores que hoje avaliam se instalar no país pela mesma vantagem energética — como a Yguazú Digital, o hub de inteligência artificial que o Paraguai lançou em conjunto com Taiwan. Diante dessa incerteza regulatória, alguns operadores de mineração já se mudaram para outros países da região. O que vai acontecer exatamente com os 943,8 MW hoje reservados para mineração a partir de 2028 ainda é uma definição que depende da ANDE. Para os operadores atuais, essa data funciona como um limite de planejamento certo: qualquer que seja a decisão final da ANDE, nenhum contrato vigente se estende além de 31 de dezembro de 2027.
Uma atividade sem lei própria
Um dado pouco conhecido é que o Paraguai não tem uma lei de mineração de criptoativos. Existiu um projeto que a teria regulamentado, mas o Poder Executivo o vetou em agosto de 2022, e ele nunca voltou a se tornar lei. Hoje a atividade é regida por um conjunto de normas de hierarquia menor: a Carta Orgânica da ANDE (Lei 966/64), o Decreto do Poder Executivo 7824/2022, e um tarifário especial fixado pela Resolução 46.984 da ANDE, que aplicou altas de entre 6% e 58% às tarifas do setor. Essa ausência de lei não significa que a atividade seja proibida nem que não tenha regras: significa que essas regras podem mudar por decisão de uma diretoria e uma resolução administrativa, num ritmo diferente do de uma reforma aprovada pelo Congresso. Em outras palavras, quem regula a mineração de Bitcoin no Paraguai não é o Congresso por meio de uma lei, mas a própria estatal de eletricidade, por resolução administrativa.
O que observar até 2027
O Paraguai chega a este momento com uma posição consolidada —quarto no mundo, sobre uma base energética que não depende de combustíveis fósseis— e com uma definição pendente que vai marcar o rumo do setor depois de 2027. Para quem avalia participar da economia digital paraguaia, seja em mineração, em inteligência artificial ou em outro setor intensivo em energia, vale partir dos fundamentos: o país mantém grau de investimento concedido pela Moody's e pela S&P, e oferece diferentes estruturas societárias para operar formalmente, da SA à SRL. A equipe da ViaParaguay pode orientar sobre como avaliar um investimento nesse contexto pelo formulário de contato.
Equipo ViaParaguay